O DIÁRIO DE UM SEDUTOR SOREN AABYE KIERKEGAARD

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O Diário de um sedutor

Søren Aabye Kierkegaard

Comecei a me interessar pela vida e obra de Kierkegaard em 2009 quando fiz um curso de Teologia que tinha como professor o Dr. Ricardo Quadros Gouveia, presidente e também especialista da associação de estudos em Kierkegaard. Li seu livro Palavra e Silêncio, um comentário extenso sobre a dialética Kierkegaardiana baseada em Gênesis 22. Neste texto bíblico Deus exige de Abraão o sacrifício de seu filho Isaac, que como sabemos, não aconteceu, mas há implicações muitos complexas e inquietantes para a fé em todo caminho até o Monte Moriá.

Somente agora, sete anos depois, posso me sentar e refletir um pouco mais.

Kierkegaard, com é mais conhecido, é um filósofo e teólogo dinamarquês que nasceu em 1812 e faleceu em 1855. Ou seja, ainda jovem, aos 42 anos de idade. Filho de um rico empresário e de mãe com pouca cultura, foi o caçula de sete filhos. Nasceu quando seu pai tinha 56 anos de idade e sua mãe 44 e, por isto, se identificava com Isaac, filho da velhice. Sua historia familiar é trágica. Cinco de seus irmãos e sua mãe faleceram quando ele ainda era um adolescente, em momentos diferentes e circunstancias diferentes. Segundo sua biografia, o pai afirmava que nenhum dos filhos passaria da idade de Cristo. A perda de uma das irmãs, de quem ele mais se afeiçoava, foi dos golpes mais duros. Ele parecia não ter muito apreço pela mãe, já que jamais a citou em seus escritos. Pelo pai alimentava uma admiração acima do normal. Mas, tardiamente descobriu que era filho de um caso de estupro e traição, já que sua mãe era antes a emprega da casa e que a esposa real de seu pai falecera antes de seu nascimento, sendo assumida como esposa posteriormente. Após a morte de seus cinco irmãos e de sua mãe, seu pai matriculou Kierkegaard e seu irmão em um curso de teologia para que se tornassem pastores luteranos. É digno de nota que, na Dinamarca, o luteranismo é religião estatal e oficial, logo sustentada pelo governo. Seu irmão chegou a bispo luterano, mas ele logo abandonou o caminho para o pastorado. A ricas posses do seu pai lhe proporcionaram vida regalada e a possibilidade de frequentar concertos de música e tantos outros eventos.

Chegou ao doutorado defendo uma tese sobre Ironia em Platão. Curiosamente, escreveu todas sua dissertação em dinamarquês. Um dos examinadores lamentou que sua tese estivesse em dinamarquês e não em latim, como até antigamente se fazia. Kierekegaard, deste modo, defendeu, para surpresa, da banca, sua tese em bom latim. Foi exatamente no campo intelectual, movido pelas experiências de vida, que se deu o grande combate de Kierkegaard.  O sistema de Hegel, era dominante em toda a Europa, incluindo a Dinamarca. Partindo do ponto de vista dialético, Hegel julgava ter alcançado a verdadeira síntese final do pensamento humano com base na razão. Kiekegaard, com seu conceito de angustia, discordava deste ponto de vista e afirmava que a vida humana se dá em três estágios: estético, ético e religioso e, que para chegar ao ultimo estagio, o religiosos, o elemento racional era desprezível, sendo necessário o salto da fé. Isto lhe rendeu perseguições e muita antipatia. No entanto, após sua redescoberta cerca de 30 anos depois de sua morte, ele dá nascimento a o existencialismo, ainda que seja um ponto de vista muitas vezes distorcido de seus conceitos de angústia. Mesmo solitário, reservado e soturno, não é possível acreditar que Kierkegaard fosse um homem desesperado e deprimido nos moldes contemporâneos.

Uma característica interessante em Kierkegaard é uso de muitos pseudônimos para seus escritos para que possa apresentar diversos textos com diversos pontos de vista de um mesmo assunto. Ele chegou a lançar dois livros no mesmo dia, com nomes diferentes e defesa de pontos de vista diferentes. Sua vida intelectual durou apenas quatorze anos, mas produziu o suficiente para encher vinte grandes volumes de escritos. Temor e tremorO Diário de um sedutorDa doença até a morte são alguns deles.

Um elemento fundamental dentro da biografia kierkegaardiana é sua vida amorosa, ou a falta dela. Chegou a ser noivo de Regina Olsen, que era nove anos mais jovem que ele. Mas desfez o noivado para grande tristeza de Regina e de sua família, não tendo mais relacionamentos após este episódio. É notório que esta cicatriz jamais se fechou no coração de Kiekegaard e a obra a que nos referimos aqui parece comprovar isto.

Ler O Diário de um Sedutor sem o pano de fundo do livro causa estranheza, rubor e até mesmo raiva do autor e seu personagem. Ele é simplesmente um homem que seduz uma garotinha até que consiga tê-la por uma noite para descartá-la sem nenhuma cerimônia no dia seguinte. Além do que mantém pequenos flertes, durante o jogo de conquista, com outras mulheres e seja ainda capaz de seduzir membros da família para que, uma vez ganha a confiança, possa se aproximar sorrateiramente e sem maiores barreiras, de seu alvo. Neste caso é a tia. Some-se a isto tudo, que sua pretendente é noiva de seu melhor amigo. Os dois personagens a que me refiro são Johannes e Cordélia.

A ópera preferida de Kierkegaard era Don Giovanni de Mozart. Conhecido também com Don Juan por nós. Ele é um sedutor que promete casamento as moças e depois as abandona. Por um lado parece prestar uma homenagem, por outro lado parece recordar seu caso com Regina Olsen. Por outro lado, manifestar desejos jamais sublimados.

  1. Os impulsos do sedutor seduzem o leitor a viver paixões assim, mas em um mundo líquido, de relacionamentos tão furtivos, quem terá esta paixão e quem a merecerá?
  2. Começa com as cartas desesperadas de Cordélia que foi abandonada. Depois o longo processo de conquistas desde a observação do sedutor até a sórdida consecução de seu plano.
  3. Ele cogita sobre as percepções e possibilidades da Cordélia e cogita casar, coisa que sequer insinuara até então. É só mais uma arma.
  4. Ela tem outro pretendente de quem fica noiva e ele tenta desmerecer o noivado, mas o noivo é também seu amigo e lhe pode ser útil já que está sempre informado dos passos da Cordélia.
  5. É possível perceber o tom de desespero do sedutor aumentar, as notas são mais curtas e cheias de desespero. Depois parece haver uma aceitação ou resignação.
  6. Beijo, erotismo e citações de Salomão aparecem no texto nas páginas 158-59. Até então não havia nenhuma citação bíblica.
  7. Mesmo galanteando Cordélia ele participa como intruso de um chá de mulheres entre 16 e 20 anos cujos assuntos, incluindo religião, lhe parecem sem importância, diante da possibilidade de ter outros ganhos com isto.
  8. Ele cita Don Juan na página 174.
  9. Desfaz o noivado. Ela se refugia e ele vai até lá e prepara o ambiente. Ele não considera Cordélia como alguém muito capaz de compreender poesia e chega a dizer que é um desperdício para uma jovem.
  10. Eles passam a noite juntos e ele a abandona, não quer mais.

O jogo de conquista durou alguns poucos meses. É importante notar que o texto começa com as cartas desesperadas de Cordélia implorando o retorno e maiores explicações de Johannes, que nunca acontecem.

Especialistas em Kierkegaard afirmar que foi um bom vivã, mas com vida tão curta e obra tão grandiosa é difícil de aceitar. E mesmo com um texto tão áspero e controverso, é difícil afirmar seu mau caratismo. Pelo menos para quem aceita, com eu, que o ser humano é sempre e invariavelmente incoerente. Sempre.

Pr Júnior

16/01/17

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