CHESTERTON, G. K. Hereges. Campinas: Ecclesiae, 3ª Edição.
A intenção não é uma resenha e nem um resumo, mas pensamentos que surgiram durante a leitura. Segundo a Edição:
Hereges foi dedicado aos filósofos literários, como G.B. Shaw, Rudyard Kipling e H.G. Wells, que, graças ao brilhantismo, eram forçados a absolutizar suas construções, pois o dogma não os poupava de ver este mundo. Estavam sempre, para usar a expressão de Flannery O’Connor, elevando o relativo ao nível do absoluto.
- Chesterton sobre Jó. O Antigo Testamento fala da solidão de Deus. Um Deus que decidiu que não estaria sozinho. Por isto e egoísmo e a independência humana é tão terrível já que corrompe o propósito para o qual fomos criados: a glória de Deus.
- Os ataques sofridos pelo cristianismo atual não são nem de perto tão inquietantes e de difícil solução como anteriormente, mas particularmente complexos para a fraca mentalidade polemista, exegética e apologética atual. Pior, a suposta mentalidade intelectual cristã é tão avessa ao próprio cristianismo que se os atuais detratores fossem um pouco mais espertos não fariam qualquer esforço contrário ao cristianismo. Deixe que os próprios derrubem os últimos escombros.
- Os homens só se conhecem de verdade quando olham pra si mesmo a partir do olhar de Cristo. Ele não é um espelho do que somos, mas o contraste sobre o que deveríamos ter sido e que nele podemos vir a ser.
- Não podemos jamais desprezar o que os homens pensam. Principalmente se apresentam um pensamento elaborados, com começo, meio e fim, ainda que não concordemos ou não faça sentido. Mas isto está longe de afirmar que a pluralidade contemporânea também não represente um perigo. É exatamente o contrário. Nunca se sabe a médio e curto prazo as suas consequências.
- Elevados ideias podem revelar uma mente doente e não que procura transcender. A diferença entre ambas pode ser sutil aos olhos humanos. O pior disto é disfarçar medíocres de verdadeiros homens.
- Tomados pelo mal, é fácil entender o quanto também somos insensíveis aos bem. Não só em percebê-lo, mas muito mais em praticá-lo. Por outro lado, esta insensibilidade também é positiva já que, mesmo não conhecendo ainda todo o poder do mal, sempre julgamos estar nos seus limiares.
- Num certo sentido, ainda temos a capacidade de prosseguir mesmo cercados de tanto mal. Isto é uma virtude.
- O erro do progressismo é exigir e pregar que seus efeitos sejam possíveis apenas rompendo os limites morais.
- Nossa bandeira dia ordem e progresso: é um lema muito razoável.
- Não há poesia naquilo que é trivial, mas homens entendiantes tiraram o brilho até do que é excepcional. Pode ser efeito de um espírito excessivamente domesticado pelo que é sem valor e sem grandes aspirações.
- A disciplina, por exemplo, não é um fim, mas um meio para atingir algo.
- A falta de profundidade e amplitude corrompe mais que a completa ignorância em alguns casos em que os temas são razão de vida e morte. Não há meios termos. Pouquíssimos pensadores atuais resistem a dois “por ques” seguidos.
- Todo homem que procura mergulhar profundamente no conhecimento pode estar certo de uma coisa: terá cada vez mais interiorizado o conhecimento da própria ignorância. Deus zomba daqueles que não o fazem por seus caminhos.
- No final das contas só temos um objeto de estudo: o homem. Mesmo quando falamos de coisas e banalidades.
- O lado oculto dos homens também possui virtudes
- Os homens ciência se perderam quando começaram a encontrar respostas
- É provável que aqueles que desejam o progressismo para todos ainda mantenham “saudáveis” hábitos tradicionais para manter a própria existência
- O amor verdadeiro a Deus e pela vida dada por ele naturalmente nos conduziria a verdade
- As guerras nunca cessarão. Mudam as armas e métodos. A única coisa que os homens concordam é discordar
- O homem não pode superar a si mesmo. Só o pode através de algo maior e diferente dele e que lhe conceda, fora dos aspectos naturais e humanos, o que é necessário para isto
- Segundo a escola dos fortes devemos estar ao lado dos fracos
- O super-homem de Nietzsche é um solitário enrijecido
- O bem existe, mas o homem é incapaz de enxergar isto
- Todas as coisas única e verdadeiramente humanas são inúteis
- A religião realmente se perde quando lhe é atacado o coração e os sentimentos porque mesmo sem a razão ainda permanece
- Nada pode ser pior para a alma do que tornar obrigatórias, comuns ou corriqueiras aquelas poucas coisas que nos dão algum prazer. O diabo é mestre em banalizar o excepcional
- Uma religião que se torna inimiga da alegria já morreu
- A alegria é sinal de eternidade e felicidade. Mistérios que não podem ser racionalizados
- Só é possível amar verdadeiramente aquilo que não morre ou deixa de existir. A verdadeira religião só pode ser alegre
- O problema da imprensa não é ser violenta ou polarizada, mas excessivamente enfadonha.
- Porque dizem muito sem dizer nada e sempre estão dissimuladamente ao lado de alguém.
- Nenhuma virtude pode ser acompanhada de orgulho porque perece.
- Uma imprensa que se preocupa com o barulho do martelo e não no prego sendo cravado na madeira.
- O mais triste para o homem é ter juízo e medida apenas a partir de si mesmo. Nisto o cristianismo mostra mais um vantagem: o padrão é Cristo.
- Em matéria de virtudes, conhecê-las é o mesmo que liquidá-las.
- É mais fácil encontrar virtude e simplicidade nos impulsos do que na elaboradas sofisticações humanas.
- Pode ser que os “templos” dedicados a algo não sejam, de fato, o melhor lugar para se aprender algo sobre aquilo.
- A ciência pode dizer o quanto há de fósforo, cálcio e proteína num pedaço de bisteca, mas não pode expressar o prazer do seu sabor e poder de saciar não apenas o corpo, mas a alma faminta. Muito menos, o que rodeia uma mesa onde ela se encontra.
- Em relação às descrições antropomórficas do passado, atribuir elementos humanos a Deus e aos eventos naturais, ampliava ainda mais o mistério. Ou seja, de forma alguma era uma simplificação.
- Nem sempre o que segue algo que existe sendo originado dele, é superior. Invariavelmente é menor. O paganismo, por exemplo, veio após o cristianismo.
- Qualquer virtude despida de paradoxo deve ser desconsiderada.
- Nada mais contrário ao progresso do que o pensamento independente.
- As pequenas comunidades, como a família, a vizinhança e a igreja com todos as suas proximidades, é a chance de sermos humanos. Por isto parece o homem querer fugir desta proximidade sob a recusa da sua universidade onde estas proximidades desaparecem. Incomodam porque não são escolhas nossas, mas de Deus.
- Lacedemônia é um caso de cidade que optou por negar o conceito e o direto a família e não subsistiu por isto mesmo.
- O vazio da “aristocracia” é querer se sustentar sobre falsos valores. Falta-lhes, por exemplo, a inteligência e perspicácia daqueles que sabem ser irônicos e, ainda pior, daqueles que realmente sabem se alegrar.
- Não existe uma relação direta entre a manifestação de sentimentos de um homem e sua fraqueza, assim como não há a relação entre a falta de manifestação de sentimentos e sua força. Grandes homem do passado manifestaram sua fraquezas, medos, choraram em público e nem por isto foram menores. Os próprios Vickings, conhecidos por grande brutalidade, podiam chorar e beijar uns aos outros como fazem meninas adolescentes.
- Ser um grande artista não faz de ninguém um grade homem. E vice-versa.
- Os ideais materialistas e aparentemente mais humanos e possíveis, quando comparados aos ideais religiosos, são mais perigosos porque, parecendo possíveis e viáveis, serão perseguidos com toda força pelos que os defendem. Os ideais religiosos, por sua vez, por aspirarem instâncias elevadíssimas da existência humana, nunca serão satisfeitos, e aqueles que os defendem sempre estarão em dívida consigo e com os outros.
- A falta de democracia existe onde não se vê algo do divino em casa ser humano. Ou, quando se olha para os “grandes”, não ver neles algo absolutamente comum.
- O herege é alguém que nega tudo que existe e diz que tudo precisa ser refeito. O ortodoxo reconhece que algo está errado, mas que nada de novo nasce à revelia do que já existe.
- Por isto, o problema maior dos homens e onde deve ser corrigidos e refeitos é no conjunto de suas crenças.
- Chesterton defende a ortodoxia, principalmente aquela vinda de Aquino, num tempo em que ela era considerada uma heresia.
- A grande arma contra o mal não é cometê-lo mas saber o que é o mal.