COBRAI KAI – QUARTA TEMPORADA – ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

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ENTRE VELHOS E NOVOS

Terminei de ver a quarta temporada. Não assisti com a mesma intensidade das três primeiras e explicarei mais à frente o porquê.  Sou um apaixonado pelo Karatê e praticante desde os 9 anos. Tempo que coincidiu o Karatê Kid 1 que foi um sucesso estrondoso. As três seguintes edições não tiveram o mesmo impacto, mas serviram bem aos interesses comerciais da época. Não acho isto um crime, mas não contem com minha empolgação e divulgação. Para ser sincero, não me lembro de ter sugerido a ninguém nem mesmo o primeiro filme.

Na época eu praticava o Karatê Shotokan. Depois de muito tempo descobri que meu Sensei era um herói de guerra japonês repatriado com honras e grandes benefícios, que incluíram uma casa confortável para viver seus últimos anos na terra natal. Eu nunca soube a idade dele, mas a minha percepção é que ele tinha algo como 70 anos em 1984. A idade é razoável porque ele teria algo entre 25 e 30 anos durante a Segunda Grande Guerra. Ainda tenho memórias dos treinos, dos campeonatos, dos exames de faixa e do Sempai Francisco. Sempai é um mestre um pouco inferior, como são os faixas marrons ou pretas de menor grau, que têm sobre si um Shihan, um mestre mais elevado e o auxilia nos treinos porque já é bastante vivido e com muito conhecimento. Acima do Shihan, até onde eu sei, está o Sosai, o criador do estilo.

Eu também fui praticar o Karatê por causa de bullying, nome que não existia na época. Como muitos dizem, na época a gente não tinha a quem recorrer, tinha que resolver as próprias coisas senão apanhava em casa também. A grande virtude do Karatê foi ter me ajudado a nunca precisar usá-lo com ninguém, até porque, não nos enganemos, eu podia me dar mal. Pouco tempo depois eu havia evoluído muito e treinava com jovens e adultos muito maiores e mais fortes. Aquilo me desanimou e me afastei do Karatê. Na época desta decisão não foi nada tão claro e consciente como é hoje. Tentei jogar futebol e não deu muito certo. Acabei descobrindo o basquete, que também me trouxe muitas alegrias e aprendizado, mas isto é outra história.

Depois de muitos anos, já adulto, casado e precisando me cuidar, eu voltei para o Karatê. O estilo era outro, o Kyokushin, e voltei, por motivos óbvios, na faixa branca. Voltei sem pressa e sem pretensões. Apenas voltei. Treinando numa academia séria, com gente que ama o Karatê, a experiência foi, e tem sido, fantástica. Aos 47 anos as coisas estão muito limitadas, e uma pandemia terrível, que dispensa apresentações, complicou um pouco mais as coisas para ir aos treinos e continuar tentando evoluir. Este retorno também teve alguns sustos e surpresas. A maior delas teve relação com o MMA. Como estive fora das artes marciais por mais de 20 anos, não sabia deste novo universo das artes marciais. Heróis, referências, grandes históricas e combates, muito dinheiro envolvido, uma nova profissão para muitos e muito mais. Corri para me informar e entender o que aconteceu.

Além disto, o novo estilo era desafiador: força, velocidade, resistência, precisão, técnica e tudo mais que um esporte pode exigir. Entretanto, o respeito pleno com os outros estilos é exigido. Em mais de 10 anos nunca vi nem mesmo uma palavra mal colocada por praticante de Karatê Kyokushin em relação a outros estilos. Alguns dizem que as artes marciais se aproximam muito de uma religião. Em parte é verdade: um compromisso e um estilo de vida com muitas exigências do corpo, da alma e do coração. Há hierarquia, respeito e um caminho a prosseguir.

E, de repente, a Netflix resolve retomar, ou recriar, aquela história que turbinou a vida de muitos adolescentes e jovens da década de 1980, hoje quarentões e cinquentões. Muitos dos personagens originais estão vivos e bem. Pat Moritna, o famoso Miyagi, faleceu, mas continua vivo na trama através das memórias do Daniel Sam. A trama de 1984 tinha todos os elementos próprios para filmes da época: um jovem tentando se adaptar em uma nova cidade e numa nova escola, conflito entre ricos e pobres, o amor entre uma princesa e um plebeu, o bullying (lembre-se que não era o termo da época) e, no centro da trama, o Karatê com todas suas virtudes. Os combates do filme atendem muito bem ao perfil cinematográfico americano, mas não necessariamente a como os combates são na vida real, mas é aquilo que pagamos para ver. O seriado da Netflix retoma a história no ano de 2021, mas também relê o passado nos anos 1980. Neste caso, nem mesmo o Karatê Kid escapou ao espírito contemporâneo dos constantes revisionismos históricos, mas isto é outro assunto.

Uma destas releituras, e a mais evidente, é mostrar que Daniel Larusso, e agora sua família, não é exatamente a vítima inocente do Lawrence e do Dojô Cobra Kai, mas sempre contribuiu para os conflitos quase mortais das tramas antigas e atuais. Na série Cobra Kai não é difícil encontrar closes dos olhares maldosos e dúbios da Samantha Larusso em diversas situações. Do mesmo modo, não é difícil entender que a Tori Nichols, a aparente vilã da história, é uma moça sofrida e solitária que está tentando ganhar a vida honestamente. A Samantha Larusso é sempre vestida e apresentada como moça frágil e comportada, enquanto a Tori é adultizada, sensualizada, embrutecida e quase banalizada. Mas tudo é aparente e superficial e isto eu achei que foi uma boa sacada dos diretores. Fora estes persongens, há outros que também transitam entre o bem e o mal, numa tensão psicanalítica parecida com as que vemos hoje.

Há personagens que permeneceram planos (sem muitas mudanças), um tanto retrógrados, ainda munidos de sentimentos pueris, menos elaborados como era próprio dos personagens dos filmes dos anos 1980. Além de Daniel Larusso e Johnny Lawrence, também me refiro aos Senseis John Kreese e Terry Silver. Este último resgatado de Karatê Kid 3. Daniel é um misto de saudosismo e contemporaneidade cindida. Lawrence é pateticamente deslocado da própria vida e do tempo, já que não sabe usar um computador, não tem celular, e nem sabia, em pleno 2021, quando a série é gravada, ou em 2022, quando é exibida, o que é um UBER. É possível que haja alguém assim tão desconectado mesmo cercado por tantos jovens? John Kreese e Terry Silver ainda estão assombrados com o Vietnã, não resolveram sua relação, alternam entre caras e bocas de homens maus à moda dos anos 1980, além de continuarem armando ciladas e traições um para o outro. A trama segue o rumo, mesclando um pouco do bem e do mal em todos os personagens. Ninguém é de fato bonzinho ou isento de culpa na trama. A realidade, de fato, é um pouco assim. Acredito que os diretores e produtores da série pensaram nisto. Ou seja, precisavam manter elementos para nós, os velhos, que nos mantivessem conectados com as histórias e personagens do passado, enquanto procuraram conectar os jovens atuais com os jovens da série. Assisti a série com isto em mente: uma produção que intercruzou dois mundos diferentes, mesclando flashes dos filmes passados com a modernidade presente. O resultado é razoável, aceitável e assistível.

Se esta foi de fato a proposta, não me senti ofendido, apesar de reconhecer que não sou um jovem, mas que também não sou tão distante do mundo juvenil e contemporâneo como o Lawrence. Larusso continua um pouco banal e distante da realidade como eu já considerava, e se mantém abrindo mão de seus princípios inabaláveis quando o interessa estando, neste caso, errado, não em mudar de posição, mas em insistir na mantutenção de princípios que se mostram questionáveis. Hoje o DNA está bem avançado e o Sensei Kreese comprovará facilmente a sua inocência e poderá se vingar do Sensei Silver (acho!). A trama está em aberto porque vitória da Tory contou com a complacência comprada do juiz, e este problema deverá ser abordado em algum momento da sequência.

Atletas do Karatê Kyokushin apareceram na série timidamente, mas a homenagem e lembrança foi percebida. Não sei se haverá a mesma corrida para as academias de Karatê como houve no passado, mas o Karatê segue vivo aos lado de outras artes mariciais nobres como ele.

Não tenho como fugir da série e não continuar assistindo, mesmo que alguns elementos da série sejam tão apetecíveis. Entretanto, é a história do cinema e do Karatê passando diante dos meus olhos e não dá para deixar de lado algo que já marcou tanto a vida de um velho.

Ossu!

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