MOISÉS E O MONOTÉISMO FREUD – VOL XXIII – OBRAS COMPLETAS – COMENTÁRIOS

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Tive a oportunidade de estudar um pouco de psicanálise. O estudo completo da psicanálise está dentro do que é chamado tripé freudiano de formação: estudo teórico, análise pessoal e análise supervisionada. O estudo teórico são as aulas propriamente ditas incluindo várias horas de debate em diversos temas freudianos e analise de casos expostos em seus livros. A análise pessoal são cerca de 150 horas de terapia com um profissional psicanalista, independentemente de sua condição psíquica (é obrigatório). A análise supervisionada também dura 150 horas, neste momento o aluno faz análise de um paciente com o apoio e coordenação de um orientador. Após isto, é filiado ou não a um sindicato e pode exercer a profissional. Talvez muitos não saibam, mas a profissão de psicanalista não está sob nenhuma legislação, a matéria não consta do MEC, senão dependente da psicologia, e pode ser exercida por qualquer um. O sindicato do psicanalista existe apenas para oferecer o mínimo de segurança para o paciente e o analista. O curso de psicanálise, neste caso, é um curso livre. Muito também se discute se a psicanálise é uma ciência assim como a psicologia. Para muitos é apenas um derivativo da psicologia, para outros é ¨ciência¨ totalmente independente, ainda que não se possa estudar e objetificar os estados inconscientes, principal foco da psicanálise.

A psicanálise exerceu uma forte influência na minha vida em momentos importantes de decisão, e não nego, de forma alguma, o seu valor. Entre tantas coisas, me levou e perceber o número de forças que concorriam pelas minhas decisões e pelos meus hábitos e, a partir desta revisão, meus níveis de ansiedade chegaram a níveis normais e reformatei quase toda minha vida inconsciente e prática. Em psicanálise não se fala em cura, ainda que nos últimos escritos de Freud ele se debata com esta possibilidade. Mas o termo cura pode ser um anacronismo da tradução brasileira. Não falo alemão.

Freud consta da lista dos homens que mudaram o mundo. E realmente mudou, mas hoje tenho certeza de que não foi necessariamente para melhor. O estudo do inconsciente, ainda que não seja original de Freud, levou este elemento oculto em cada um de nós ao patamar das investigações mais importantes. Contribuiu com terminologias como inconsciente, id, ego, superego, pulsões de vida, pulsões de morte, perversão, dando a muitas delas, já existentes, novos significados. Foi um escritor prolixo, em virtude, inclusive, das muitas revisões de seus casos e escritos. Criticou muito a religião, mas nunca foi realmente fundo da questão e, lamentamos que com isto tenha perdido uma parte importante das suas análises do interior humano, tornando-se assim um autor incompleto. Seus escritos incentivam o ateísmo. O que para muitos é sinal de erudição e contemporaneidade. Como muitos pensadores e autores do seu tempo, profetizou (falsamente e erroneamente!) o fim da religião. Conhecer Freud minimamente é necessário a qualquer estudante, pensador, pastor ou crente que queira compreender e interagir minimamente no mundo de hoje. É bom que se se saiba que mesmo em muitos ambientes psicanalíticos, Freud não é unanimidade, muitos o consideram ultrapassado e falho em muitos aspectos. E entre estas escolas podemos destacar a escola lacaniana e a escola junguiana, das sete escolas psicanalíticas catalogadas.

Não cabe aqui muitos comentários, mas é bom ressaltar a fundamentação hegeliana nos escritos freudianos e mesmo figuras dos elementos kierkegaardianos, ainda que fosse ideias que a seu tempo se opusessem. O pré-existencialismo cristão do salto da fé que se tornou apenas desespero em Freud e tantos outros.

Os breves comentários que seguem fazem parte do Volume XXIII das obras completas de Freud em português. Ao contrário do que parece, não comecei pelo fim, porque nossas resenhas e comentários começaram agora em 2017. Mas, antes que pareça que estou lendo a obra completa tendo chegado a seus últimos volume, afirmo mais uma vez, não é isto. Já li muitos textos e obras de Freud em momentos diferentes. Este volume apresenta o texto ¨Moisés e o Monoteísmo¨ resolvi lê-lo agora na íntegra. Este volume apresenta cerca de onze textos, incluindo textos incompletos e frases soltas do tipo anotações de cabeceira de cama e insights.

  1. Moisés e o monoteísmo – é uma clara tentativa de desconstruir o judaísmo a partir da figura de Moisés. Para Freud, Moisés era um egípcio que se valeu de um culto monoteísta pré-existente e que conseguiu a adesão de um povo sofrido no Egito. Este povo acabou matando o seu líder e construindo uma imagem positiva dele e menos negativa do próprio povo, ocultando, mascarando e resignificando o homicídio de um pessoa tão importante. Como todos aqueles que tentam desmerecer o judaísmo e o cristianismo, lança forte acusações de plágio e falta de fundamentação histórica na própria religião. Afirma que Moisés era pregador do monoteísmo de Akhnaten, um Faraó Egípcio adorador de Aton (Aquenatón). Afirma a mudança no paradigma do período instintual matriarcal para intelectual patriarcal em Moisés. Após a morte de Akhnaten o politeísmo egípcio voltou gradualmente ao modelo antigo. Para ele existe uma ética gerada para tentar satisfazer a culpa pela morte do pai primevo, assim os judeus carregavam a culpa de ter matado Moisés. Por meio disto, tenta mostrar como o consciente é produto da externação do inconsciente, inclusive no formato da religião. Ele desenvolve depois que nascemos quando o Id (instinto), o ego (o mediador da instância psíquica e o superego (o juiz) são formados.
  2. Esboço de psicanálise – ele apresenta todas as terminologias e suas fundamentações como já falamos anteriormente.
  3. Id, Ego e superego: a questão dos sonhos – A princípio o sonho é um protetor do sono. Os sonhos podem ser manifestações de nossas heranças biológicas. O sonho é da natureza da psicose. A gente pode contar para todo mundo como somos, mas diante de poucos seremos nós mesmos. A suspeita de fatores biológicos é apontada por Freud nas neuroses, mas diz que não é passível de investigação.
  4. Análise terminável é interminável – Trabalho do final da vida de Freud no qual ele admite o longo tempo para poucos resultados na análise. Ele esboça quando são os entraves. Na página 197 insinua que o livro de Flavio Josefo tenha sido alterado e retirado fatos ofensivos ao cristianismo. Devido à impossibilidades biológicas, neuroses geradas por desejos impossíveis, impossibilitam a conclusão sobre o sucesso de uma análise.
  5. Construções em análise – Uma breve discussão sobre o papel da linguagem no processo analítico. Freud fala sim de cura, mas de elementos quem da linguagem e da cultura que podem criar falsas camadas interpretativas sobre o analisado.
  6. A divisão do ego no processo de defesa – Texto inacabado. Trata das reações do ego a processo de castração, psicoses e neuroses. Como o ego produz alterações e novos comportamentos quando não pode se satisfazer.
  7. Algumas lições elementares de psicanálise – O conhecimento nos chega pela participação nele ou pela aquisição de dogmas. Freud afirma a impopularidade da psicanálise. Trará ideias gerais sobre a psicanálise.Psicanálise é psicologia profunda e separa o que é mental e consciente do que é psíquico e inconsciente. Fez a relação entra corpo e mente: somatização. Ideias que ocorrem a uma pessoa, atos falhos e produtos da hipnose manifestam isto.Chegou onde a filosofia não chegou e teve coragem que a psicologia não teve.
  8. Um comentário sobre o anti-semitismo – Parte de um texto que afirma certa inferioridade dos judeus, mas que não justificaram os ataques contra eles: cristãos devem amar os inimigos. Freud argumenta que as coisas detestáveis nos judeus encontram outros paralelos em todas as culturas, mas que são superiores no trato da família, menos afeitos ao álcool e ajudam os pobres como algo sagrado, por exemplo.
  9. Lou Andreas Salome – um texto sobre o falecimento de uma pessoa que lhe era cara. Foi amante da psicanálise, recusou casar com Nieztsche e recebe esta referência de Freud. Morre em 1937, com 76 anos.
  10. Achados, ideias e problemas (1938-1941) – Uma coleção de 9 frases escritas em Londres que parecem insights de cabeceira de cama ou durante estudos.
  11. Anti-semitismo na Inglaterra 1938 – Breve carta falando de sua dura trajetória e pedindo um campanha de simpatia pelos judeus, já que o contrário acontecia.

Pr Júnior

16/01/2017

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